Entrevista com Susana Vinzon, coordenadora do projeto Orla Sem Lixo

“O ideal seria que pare de chegar lixo na Baía de Guanabara, mas enquanto esta solução não chega, podemos melhorar muito a coleta, se criarmos oportunidades de rendas para as comunidades e a recuperação ambiental”

Susana Beatriz Vinzon, doutora em Engenharia Oceânica, professora titular da UFRJ, coordenadora do projeto Orla sem Lixo*

Como surgiu a ideia do Orla Sem Lixo e como todas as equipes e pesquisadores foram mobilizados para integrar o projeto?

SV – Este projeto começou com uma demanda da Prefeitura Universitária, que nos procurou, pela vinculação com a Engenharia Oceânica, para encontrar uma solução para o lixo no entorno da Ilha do Fundão. Nós começamos alguns estudos, mas vimos que é necessária uma destinação ao lixo: o professor José Carlos Pinto estava justamente estudando uma possibilidade de reciclagem desse material. Juntos, continuamos construindo nossa solução. Em seguida, a Fundação Boticário organizou um workshop para a Baía de Guanabara, cuja intenção era justamente conectar grupos e pessoas. Desse workshop nasceram conexões com algumas empresas e pessoas interessadas no projeto. Daí partimos para delinear um piloto, já mais animados, e com a perspectiva da reciclagem e começamos a ver outras frentes que seriam necessárias para compor um estudo mais abrangente dentro do que nós chamamos de conceitos, das soluções baseadas na natureza. A ideia é ter uma solução integrada, holística, multidisciplinar, que cria oportunidade não apenas para desenvolver uma tecnologia, uma solução, mas também que cria oportunidade para recuperação dos ambientes, dos ecossistemas e das populações no entorno. Então aí nasceu dessa ideia o convite para se trabalhar com tecnologia social com as comunidades de pesca da Ilha do Fundão.

Hoje qual é a quantidade de lixo que chega na Ilha do Fundão e quais os impactos deste problema para todo o meio ambiente?

SV – O lixo tem um problema mais macro do qual todo mundo fala, que é o lixo flutuante nos oceanos, cuja origem, na sua grande maioria, teve origem continental: as bacias de drenagem dos rios levam o resíduo sólido, o lixo que não é coletado, para os corpos d’água costeiros. E, claro, os plásticos, como são um material que não se degrada, acabam sendo maioria do que nós encontramos longe das fontes. Para a região da Ilha do Fundão, nós temos grandes contribuintes de resíduos sólidos via redes de drenagem, e como resultado toda a orla da Ilha do Fundão está completamente cheia de lixo. Nesses estudos iniciais, estimamos alguma coisa em torno de uma tonelada de plásticos por dia chegando na orla do Catalão. A enseada do Fundão é um belíssimo ambiente, muito nobre na Ilha do Fundão, porém totalmente degradado pela presença desse lixo. É um lixo contaminado, que vem junto com esgoto e que traz degradação em todos os ambientes nos quais ele se instala. Os mangues são de particular impacto, porque o mangue naturalmente captura nutrientes, sedimentos, contaminantes e também muita quantidade de lixo que certamente impacta esses ecossistemas. Não temos muita informação sobre que tipo de impacto: sabemos que sufoca a planta, sabemos que os animais têm menos oportunidades de se desenvolver, mas nós não temos no momento muita informação. Esta é uma das frentes desse projeto: avaliar o impacto neste ecossistema. 

Quais são os diferenciais, na comparação com outros projetos que já atuam na Baía de Guanabara, e como o projeto vem sendo estruturado como uma solução integrada? Como este projeto vai conseguir ser mais duradouro do que outros?

SV – O Orla Sem Lixo é um projeto acadêmico que tem muitas frentes de pesquisa: estamos trabalhando também com conceito da universidade como laboratório vivo, da Universidade em si. Nós temos um campus que é uma ilha, banhado pelas águas da Baía de Guanabara, então é um espaço de experimentação também, Este já é um grande diferencial: é um projeto acadêmico, que agrega no momento 19 professores, de várias especialidades, então este certamente é um grande diferencial. Mas a solução que a gente procura é uma solução que se multiplique, então um dos objetivos principais é criar um modelo de geração de trabalho e renda para as comunidades de pesca, para eles enfrentarem e participarem deste combate ao lixo flutuante no ambiente da Baía de Guanabara. Se a gente conseguir ter sucesso nesse aspecto, nós esperamos que a solução naturalmente venha a se replicar, porque vai ter um interesse econômico real das comunidades participarem desta atividade. 

Considerando essas dificuldades, qual modelo de barreira ecológica está sendo pensado para o Orla Sem Lixo, e quais são as especificidades da Baía de Guanabara e da Enseada de Bom Jesus que influenciaram na escolha deste local? Qual a expectativa de começar? 

SV – As barreiras que estão hoje instaladas nos tributários da Baía de Guanabara são barreiras que vão fechar os rios, e a coleta deste lixo vai ser feita pela margem. A barreira fechada tem o problema de não permitir o trânsito de embarcações, o que muitas vezes acaba ocorrendo porque a barreira aberta para passar a embarcação não é fechada logo, enfim, em qualquer destes casos se perde lixo. Essas barreiras estão operando já há alguns anos, e nós sabemos que muito lixo escapa: não há medições, sabemos quanto ele retém, quanto é coletado, a barreira que a gente vai estudar é uma que permita maior flexibilidade nos locais onde ela vai ser instalada, que permita que a coleta seja feita na no próprio corpo d’água. Isso evita criar áreas de degradação. Na região costeira, onde você estaria fazendo essa coleta, faria um único ponto de desembarque, que seria onde você já faria a gestão, estaria próximo da reciclagem, enfim, de alguma forma criaria uma logística para esse lixo flutuante. É um pouco diferente do que hoje é praticado. Hoje o Governo do Estado tem investimento anual da ordem de R$ 20 milhões para combater esse lixo. Parte deste custo alto é porque este lixo é levado até o aterro sanitário, que fica bem longe, mais de 60 kilômetros do dos locais onde o lixo é coletado.

São uma série de fatores, que vão contribuir para uma inovação: pequenas grandes diferenças de conceito que estamos colocando nesta proposta, e já começamos a desenvolver com a ideia de inovar nessa gestão do lixo flutuante. É claro que nós gostaríamos de não ter lixo chegando nos corpos d’água, como a Baía de Guanabara. Hoje essa é uma realidade muito longe de ser alcançada. E mesmo que este lixo seja barrado totalmente do que é portado pela rede fluvial, nós ainda temos um passivo enorme de lixo que circula, e que em algum momento vai chegar na orla da Ilha do Fundão. 

Por que foram escolhidas estas enseadas específicas?

SV – O objetivo é uma solução para o lixo flutuante. O local escolhido é a Baía de Guanabara, poderia ser a Baía Sepetiba, mas nossa solução certamente não vai ser muito diretamente replicada em áreas abertas, como por exemplo em uma praia, como São Conrado, por exemplo, onde também tem muito lixo chegando, pelos pequenos rios que chegam à praia. Então é uma solução olhando pra Baía, certo? Nós fomos de alguma forma demandados em procurar uma solução para a orla do Fundão, então a ideia é desenvolver um piloto. A Baía de Bom Jesus é um espaço relativamente pequeno, fechado, um espaço mais fácil de ser trabalhado. Também tem um elemento que é de interesse da L’Oréal, uma das empresas apoiadoras: um prédio que está olhando pra Baía Bom Jesus, e que oferece apoios. A presença de um prédio para fazer medições, para deixar equipamentos de vigilância também influenciaram nessa ideia de colocar o piloto neste espaço. 

Como é gerado este lixo? E a questão de barrar o lixo antes que ele chegue na orla, essa é uma diferença em relação aos outros projetos?

SV – O diferencial é a forma de barrar o lixo. Poderia ser feito da forma que estamos pensando para a orla, que são barreiras abertas, onde temos unidades de coleta que são associadas a essas barreiras, ou seja, você tem uma barreira onde o lixo deriva para uma unidade coletora, que é diferente de você conduzir o lixo para margem e coletar o lixo pela margem. Então essa solução poderia ser aplicada a qualquer tipo de corpo d’água que não tenha ondas. Por que eu estou fazendo essa diferença com as praias? Porque na praia há a energia das ondas, que é muito forte, temos de pensar em outra estratégia. Em fundo de baía, você tem um ambiente mais calmo, nós podemos pensar nessas soluções das quais nós já estamos falando.

O lixo é gerado na sua grande maioria do lixo domiciliar, é a falta de coleta de lixo domiciliar. Algumas avaliações indicam, que para resolver o problema da coleta de lixo domiciliar na Baixada Fluminense, teria de se fazer unidades habitacionais apropriadas, porque em muitos lugares você não tem coleta de lixo: as pessoas não têm onde jogar o lixo, e acaba indo pros rios. Mas agora um dos maiores problemas são os plásticos nos oceanos. Nós estamos falando aqui na Baía de Guanabara, nas barreiras e mais ou menos na ordem de 15, 20 toneladas de lixo por dia. E a estimativa seria que poderíamos estar falando de 80 toneladas por dia de lixo chegando na Guanabara. Quer dizer, é uma situação extrema, digamos assim, comparada com, enfim, lugares onde você tem coleta de lixo. Você não tendo problema na coleta, sempre tem um remanescente de plásticos e de lixo em situações de enchente, ventanias, enfim, em outras situações, em que a rede de drenagem é o destino final desses materiais.

Em relação ao processo de Pirólise: como funciona a reciclagem química dentro da solução integrada do Orla Sem Lixo?

SV – A equipe da Engenharia de polímeros, da Engenharia Química da Coppe, está estudando para várias aplicações, mas especialmente para a reciclagem de plásticos em geral. Não necessariamente do lixo flutuante. É uma reciclagem onde você não precisa fazer separação, na verdade vai desestruturar essa matéria. E o que você precisa é que tenha plástico, porque o que você quer recuperar são os insumos da cadeia produtiva dos próprios plásticos. Eu não sou dessa área, sou engenheira costeira, mas o que nós vimos como uma grande oportunidade é porque o lixo flutuante é um lixo muito contaminado. Como ele vem junto com muito esgoto, isso quer dizer que o manuseio não é muito recomendado: é um lixo para não ser tratado, pelos catadores, enfim, as cooperativas de catadores fazem separação. Então a possibilidade de levar esse lixo, como ele vem diretamente para a planta de reciclagem, foi um dos grandes motivadores desse consórcio. E o outro é o valor agregado, porque quando você vai fazer uma reciclagem mecânica, terá uma série de custos que fazem com que o valor do lixo na reciclagem seja relativamente baixo. A ideia da pirólise é agregar valor no processo de reciclagem, que tem todo o atrativo para o lixo flutuante. 

Como vai ser o monitoramento da área ambiental?

SV – Nós vamos fazer vários tipos de monitoramento. A questão da qualidade da água: temos muito esgoto chegando na orla do Fundão, mas vamos estar mesmo assim monitorando a qualidade de água, sobretudo o impacto do lixo nos mangues. Vamos observar a recuperação dos ecossistemas, em termos de floresta e em termos de comunidades, especialmente a comunidade dos caranguejos. No momento, nós estamos trabalhando no diagnóstico, ou seja, como estão essas duas áreas   de manguezal: na Baía de Bom Jesus e o manguezal do lado da Vila Residencial. A partir desse diagnóstico, quando as barreiras forem instaladas, nós vamos fazer limpezas nas áreas protegidas para começar a monitorar o que acontece. Vamos observar o impacto do método de limpeza, e vamos monitorar a recuperação e também os fluxos através da barreira. Com a barreira, não deixa existir também uma barreira pro fluxo de vida: as larvas que entram e saem do mangue, vamos observar como essa barreira atua em relação à vida, o fluxo de vida que entra e sai do mangue. 

Quantas outras áreas serão contempladas neste processo de monitoramento? 

SV – Este monitoramento vai ser feito especialmente pelos grupos da Biologia, mas também temos um grupo da Geografia, que trabalha com um sensoriamento remoto e com drones, para observar as áreas de floresta. Equipes de pesquisadores da Biologia, Microbiologia e Hidrobiologia. Na parte de Aquática, temos várias equipes que trabalham no monitoramento ambiental. Temos uma parte de monitoramento social, associado fundamentalmente aos grupos de pescadores. Na vila residencial da Ilha do Fundão, vamos trabalhar e observar o impacto dessas medidas, para evitar que o lixo chegue na costa e como isso impacta na vida dessas pessoas. 

Como vai acontecer essa integração das atividades do projeto com as comunidades locais da Ilha do Fundão, como os pescadores? 

SV – Esta é uma frente que chamamos de Tecnologia Social, onde vamos desenvolver a tecnologia para a coleta e o transporte junto com essas comunidades. Esse é certamente um grande desafio, que é juntar os saberes locais, afinal, pescador é quem sabe mais, sabe tudo da Baía de Guanabara, daquelas águas e sabe muito do lixo. Eles já trazem nas redes uma quantidade de lixo enorme. Eles certamente vão nos ajudar a desenvolver uma solução que seja efetiva, que seja viável, factível e sustentável. Estamos trabalhando com duas associações: Associação de Pesca Artesanal da Prainha e Associação de Pescadores Artesanais da Ilha do Fundão, que são aqueles pescadores sediados na vila residencial. 

Já existe alguma expectativa de testar os equipamentos? Em qual fase estão neste momento?

SV – Já instalamos o marégrafo, começamos a medir a maré, o que é um marco no projeto. Havíamos instalado anteriormente, mas o equipamento apresentou defeitos, veio a pandemia e tivemos que que suspender. Agora temos programados levantamentos altimétricos, medições de correntes, tudo isso vai começar em breve. Já estamos também trabalhando com a empresa que vai fornecer as barreiras: para essa engenharia de barreiras, é uma empresa alemã sediada em São Paulo. Começamos a desenvolver esses equipamentos que vão medir o lixo, enfim, vamos procurar soluções efetivas e baratas, porque queremos que essa solução se multiplique.

A ideia é que esta solução sirva como um protótipo para ser utilizada em outras áreas, mas áreas com características semelhantes à Baía?   

SV – Eu fiz a ressalva das praias, porque o tipo de solução que a gente vai pensar não é para áreas onde você tem arrebentação das ondas. Na praia São Conrado, por exemplo, quando chove tem também um rio chegando, impressionante! O lixo que chega na Praia Vermelha vem do fundo da Baía de Guanabara. No dia em que a gente conseguir uma solução efetiva para o lixo da Baía de Guanabara, a Praia Vermelha fica limpinha.

Então o que disseste agora é que uma solução talvez localizada vai ter um impacto amplo. 

SV – Nós vamos fazer um piloto no entorno da Ilha do Fundão, mas imagine que este piloto, este conjunto barreiras, unidade coletora, coleta e transporte pelos pescadores, reciclagem, toda essa circularidade da solução, dê certo. É uma conta que fecha, uma conta econômica também de interesse do pescador, de interesse da pessoa que tem a planta reciclagem, enfim, interesse econômico. Imaginemos que este círculo fecha, então conseguimos um modelo de geração de trabalho e renda interessante, certo? Outras pessoas vão se interessar pela solução, poderão replicar em vários locais da Baía de Guanabara onde temos muito lixo. Nós sabemos que tem alguns pontos de acumulação, por exemplo, então essa solução poderia ser aplicada neste espaço e vai começar a trazer uma perenidade da solução. Claro que o ideal seria que pare de chegar lixo na Baía de Guanabara, disso não há dúvida, de trabalhar na fonte. Mas enquanto essa solução não chega, podemos melhorar muito a coleta desse lixo na Baía de Guanabara, se criarmos uma oportunidade de negócio. Uma oportunidade de renda para pessoas que possam fazer este trabalho. E eu diria que a cereja do bolo seria a recuperação da praia da Ilha do Fundão. Esta praia é belíssima, tem um projeto chamado “Parque da Orla”, com infraestrutura para esportes e lazer, isso poderia reverter para uma grande população que vem e aproveita a Ilha do Fundão no final de semana. Se a praia tivesse condições ambientais adequadas, retirando lixo ou evitando que o lixo chegue nesses lugares, podemos transformar o lugar a partir desta ação.

*Entrevista concedida à equipe de Comunicação do projeto, coordenada pela professora Carine Prevedello (ECO/UFRJ), com a participação dos estudantes de Jornalismo Lorenzo Mello e Rebecca Henze.

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