Entrevista com José Carlos Pinto, coordenador da Frente de Reciclagem Química do Orla Sem Lixo

“O mecanismo de pirólise é uma peça nessa engrenagem, mas a grande originalidade é o sistema que usamos para tratar o lixo como matéria-prima que não precisa ser pura, não precisa ter composição constante e não precisa produzir um único produto”

José Carlos Pinto, professor do Programa de Engenharia Química da COPPE/UFRJ, coordenador dA FRENTE de Reciclagem Química do PROJETO Orla sem Lixo*

Quais são os resíduos encontrados na Baía de Guanabara na área de atuação do projeto Orla Sem Lixo? De que tipo são os materiais que vão passar pelo processo de reciclagem?

JP – Esta pergunta faz parte da pesquisa que estamos fazendo. Na verdade, a gente não sabe responder essa pergunta com precisão. Em uma pequena amostragem de algumas praias da Ilha do Fundão, encontramos uma quantidade muito variada de materiais. Além de ter muita matéria-prima orgânica que chega misturada com material plástico, como galho, folha, a gente tem muito pet. E tem muito filme de polietileno, polipropileno, que são usados para fazer sacolas plásticas, copos descartáveis. A gente viu também muito PVC, que vem em bonecas, em peças e artefatos da construção civil que, eventualmente, são jogados nos rios que vão desembocar na Baía de Guanabara, e muito poliestireno, que é muito usado para fazer material descartável. Mas se você me perguntar hoje se temos uma amostra significativa do percentual de cada material, não temos. Vamos fazer duas amostragens. Uma baseada na coleta da corrente aquosa propriamente dita: instalar ecobarreiras na saída de alguns rios e também na Enseada da Ilha do Fundão e coletar o material que chega boiando. E a gente também vai catar, já marcamos em vários terrenos, mas vamos fazer de uma maneira cientificamente bem posta, catar algumas áreas que têm a mesma metragem, em diferentes lugares da Cidade Universitária, para poder comparar o que chega na praia com o que a gente coleta no mar.

Em princípio, alguém poderia pensar que era a mesma coisa, mas, de fato, não precisa ser, porque o material que fica na praia acumula-se por muitos dias e pessoas podem levar. Catadores, por exemplo, encontram uso muito mais fácil para pet. Se você tem um ambiente usado pelo catador para coletar material útil para reciclagem, provavelmente vai ser pobre em pet, porque o catador vai levar o pet embora. Então, se imaginamos dessa maneira, o que coletamos na água pode ser que seja diferente do que coletamos na praia. E isso faz parte da pesquisa que a gente está fazendo.

Depois da coleta, quando o material vai para reciclagem, qual é a principal diferença entre a reciclagem comum e o processo da reciclagem química?

JP – A reciclagem que se chama comum, em geral, é a reciclagem mecânica. Na reciclagem mecânica, o que a gente faz é simplesmente mudar a forma da peça, do material. Por exemplo, você pode pegar uma garrafa pet, derreter a garrafa pet e fazer uma fibra que vai virar uma camisa. Isso é uma reciclagem mecânica: não mudou o material. O material é rigorosamente o mesmo, só está com uma outra forma. A reciclagem mecânica, quase sempre, precisa que o material tenha um nível de pureza razoavelmente grande e é fácil de compreender. Imagina que você faça uma fibra com uma camisa de pet reciclado que esteja contaminado com material orgânico. Ela vai cheirar mal, vai estragar, vai ter problema. A reciclagem mecânica quase sempre demanda um nível de limpeza que é muito difícil de compatibilizar com o nível de limpeza, de pureza dos resíduos que coletamos no lixo. Então, quase sempre a reciclagem mecânica é muito mais eficiente quando os materiais são obtidos de uma forma mais ou menos pura ou quando não custa muito e é fácil limpar.

A reciclagem química não muda a forma, muda a molécula. Por exemplo, a gente pega o pet e não derrete para fazer fibra: desconstrói a molécula do pet, vai virar um outro produto químico. E podemos fazer isso com o auxílio de dissolventes. No caso do pet, por exemplo, água, ou a gente pode fazer com o auxílio de temperatura, desconstruindo a molécula. Quando você esquenta, é como se a molécula começasse a quebrar. Uma molécula de material plástico, que é muito grande, quando esquenta, começa a queimar, quebrar, vai soltando os pedacinhos e você faz moléculas muito menores, que são úteis para a indústria química. Então, qual é a principal diferença que tem entre a reciclagem mecânica e a reciclagem química? No que diz respeito à natureza intrínseca do processo, é que a mecânica preserva a molécula e muda a forma. A química muda a própria molécula. Só que, por conta disso, a mecânica precisa de um nível de pureza elevado, poucas vezes compatível com o lixo. E a química não, porque, se ela vier com outras impurezas, não tem problema nenhum. Vai ser tudo tratado junto e, eventualmente, as impurezas vão virar moléculas também de interesse da indústria química. O tratamento da reciclagem química é muito mais robusto, porque pode tratar o lixo in natura, por exemplo, para fazer a reciclagem química. Na reciclagem mecânica, você não pode.

Qual é a importância da reciclagem química dentro da proposta do Orla Sem Lixo e por que a pirólise é vantajosa?

JP – Estamos estudando, queremos construir uma plataforma, um sistema que tenha uma abrangência muito maior, que possa permitir uma solução holística, integrada para o problema de lidar com o resíduo. É por isso que, no projeto Orla Sem Lixo, a gente prevê catar o lixo, recuperar, mobilizar as cooperativas de catadores, as comunidades locais, para eles coletarem desse resíduo o que pode ser útil para reciclagem mecânica ou para revenda deles diretamente. E aí vai sobrar desse material um lixo que, hoje, o destino seria o aterro sanitário. Só que, para nós, o aterro sanitário é o passado. Não existe aterro sanitário bom. Todo aterro sanitário filosoficamente é ruim. Porque ele é um espaço onde você acumula terra, usa o terreno para guardar para todo sempre. É uma tumba de lixo. Depois que acaba, você cobre com terra e fica como se fosse uma tumba. É um cemitério de resíduo.

A ideia é que esse resíduo que sobrou, ao invés de ir para o aterro sanitário, seja transformado em produtos químicos úteis, como óleo diesel. Ele poderia ser usado para produzir gás metano, que também pode ser usado para vários usos, para energia, mas não apenas energia. Porque quando a gente pensa em queima, é o que eu chamo de um uso menos criativo. Embora a sociedade nossa seja “energívora”, nome que eu gosto de usar já que consumimos energia numa velocidade estúpida e numa quantidade absurdamente grande, certamente usar metano desse resíduo e óleo diesel para gerar energia é melhor do que ir lá no fundo da terra pegar mais petróleo e trazer mais carbono para superfície da terra. Mas ainda assim é um uso pouco criativo, porque na queima você vai mandar as moléculas, no final das contas, para atmosfera e um dos grandes problemas do século XXI é o aquecimento global. Temos de trabalhar para reduzir as emissões. A ideia é manter essa corrente química para produzir produtos químicos úteis. Esse material vai ser integrado com correntes de refinaria, para ser reintroduzido na cadeia química. É como se o resíduo que o catador não consegue aproveitar virasse uma corrente que vai virar solvente, vai virar tinta, vai virar outros materiais plásticos, vai virar plastificante. Enfim, vai virar produtos químicos úteis que a sociedade utiliza. Esse é o grande objetivo.

E aí nesse cenário não existe exatamente uma comparação com a mecânica ou com uma outra. Ela é uma técnica completamente diferente, até porque a reciclagem mecânica só pode ser usada em menos de um terço dos materiais por esse problema da pureza, e porque a maioria absoluta dos materiais não funde e, se ele não funde, você não tem como dar outra forma. Por conta disso, a reciclagem química é muito importante, é uma vertente tecnológica muito importante. A grande vantagem, no caso da pirólise, esse tratamento com temperatura, é que, além dela ser muito robusta, permite lidar com resíduos contaminados, com lixo mais amplo, misturado com material orgânico, com papel, o que for. É também mais facilmente controlável para produzir o produto químico A ou o produto químico B. Então, essa é uma rota muito interessante para as empresas que lidam com produtos químicos, porque torna mais fácil adaptar o que se obtém do resíduo aos interesses das empresas que usam esse resíduo para produzir produtos químicos úteis.

Como podemos definir o que é a pirólise dentro dos vários modelos de reciclagem química? Qual é a tecnologia? Qual é o diferencial dessa proposta em relação às que já estão sendo implantadas hoje na Baía de Guanabara?

JP – A pirólise é o tratamento térmico mais o tratamento térmico na ausência de oxigênio. Do ponto de vista químico, essa informação do tratamento térmico na ausência de oxigênio é fundamental, porque o oxigênio, quando está presente, provoca queima dos materiais e produz dióxido de carbono e água como produto final. Quando você faz a pirólise, você não trata na presença de oxigênio. Então, não queima o material, na verdade, muda o material, desconstrói o material. É como se transformasse uma molécula muito grande e produzisse a partir dela bloquinhos menores. Só que a partir desses bloquinhos menores, você reinsere na refinaria e obtém todo o conjunto de materiais químicos de interesse da indústria química e da sociedade de maneira geral. Na verdade, é exatamente isso que a gente faz com o petróleo. O petróleo é pego lá no fundo mar, e quando chega na refinaria, é uma gororoba gosmenta, porque é uma mistura muito complicada que tem um monte de moléculas. A maioria delas é enorme, não serve para fazer praticamente nada. O primeiro processo que se faz na refinaria é o craqueamento, a quebra dessas moléculas grandes que estão presentes no petróleo em pedaços menores que são úteis de fato para construir os produtos químicos.

Que eu saiba, não tem, neste momento, nenhum projeto, nenhuma ação integrada em torno da Baía de Guanabara, que combine modelos de coleta, envolvimento das comunidades de catadores e construção de um modelo de negócios para essas unidades de pirólise ou de transformação. Nesse sentido, o projeto se reveste de um caráter muito original nessa questão holística. O que eu não quero dizer aqui é que essa é a primeira iniciativa de pirólise do mundo. Não é. Existem grandes plantas de tratamento térmico de resíduos, da indústria de plásticos no mundo, só que nós estamos desenvolvendo procedimentos muito mais robustos de tratamento desses materiais no grupo de pesquisa que a gente trabalha. Existe uma publicação recente que aponta que um dos problemas que algumas empresas estão tendo nessa área de reciclagem de resíduos plásticos é a visão de que você vai ter um resíduo, um processo e um produto.

A maneira como nós estamos trabalhando nos desenvolvimentos que a gente faz com o apoio da Braskem, com o apoio da FCC (Fábrica Carioca de Catalisadores) e com a colaboração da Petrobras, é uma ideia de que a gente tem N fontes, uma planta e N produtos. A nossa ideia é um modelo de negócio em que nós não estamos produzindo uma carga para ser usada diretamente. É uma carga para ser inserida na refinaria, aumentando e muito a possibilidade de uso desses materiais. Além disso, nós estamos trabalhando em conjunto com parceiros desenvolvendo catalisadores mais robustos e muito mais eficientes para esses processos. E já estamos escalonando os nossos processos. A grande originalidade tecnológica que estamos fazendo tem a ver com a robustez do processo e a capacidade de lidar com um conjunto de resíduos e situações muito maiores, tornando o processo muito menos sensível a mudanças de carga, mudanças de lixo, de sazonalidade. E também produzindo com essa ideia de uma corrente integrada para uso e transformação na indústria química. Nós não estamos tirando do nosso processo um produto, como gasolina para carro. Não é isso. A gente está tirando uma mistura que vai para a refinaria e vai virar gasolina de carro, óleo diesel de caminhão, polietileno, propileno, vai virar um monte de outras coisas simultaneamente.

É uma visão do lixo como se o lixo fosse o petróleo. Tudo que a gente faz com o petróleo, que tem as mesmas características do lixo, – é uma mistura complexa, formada por materiais muito diferentes, com vários contaminantes -, a gente está fazendo rigorosamente a mesma coisa com o lixo. É como se o lixo passasse a ser uma nova matéria-prima in natura para produção desses produtos. É um modelo de negócio, uma filosofia de operar esses sistemas muito diferente do que tem sido feito. A gente sabe que isso não funciona porque o lixo tem composição variável, é sazonal. Por conta disso, os produtos também mudam. Então, essa abordagem não funciona. É daí que vem a originalidade principal do trabalho que estamos fazendo, que tem a ver com o processo como um todo e não exatamente apenas com o mecanismo de pirólise. O mecanismo de pirólise é uma peça nessa engrenagem. É importante porque ela permite desmontar, mas a grande originalidade é o que está em volta, é o sistema que a gente usa para tratar o lixo como matéria-prima que não precisa ser pura, não precisa ter composição constante e não precisa produzir um único produto.

Em relação à planta-piloto da pirólise, que foi instalada na Ilha do Fundão, qual é a capacidade dessa planta? Já é possível fazer alguma análise em relação ao funcionamento dessa planta dentro da ideia inicial do projeto de uso da pirólise?

JP – Ela já foi construída, então estamos operando com ela. Está numa fase que chamamos de validação. Estamos fazendo uma série de testes, corridas, padrões para análise do processo. É uma planta pequena, que tem capacidade de seis litros, mas que é capaz de gerar produto suficiente para fazer testes reais de desempenho de mercado, – de material, em máquinas, em parceria com a Petrobras -, que a gente não tinha condição de fazer até então. E ela vai ser usada como modelo de aprendizado, os acertos e os erros para construir uma unidade em que a gente está trabalhando… em princípio, tem interesse inclusive de parceiros que estão na própria Cidade Universitária do Fundão, como a Ambev e a Petrobras, para produzirmos uma unidade de uma tonelada por dia. Essa uma tonelada por dia não é por acaso, é o que a gente estima que chega na Ilha do Fundão. Se somarmos todo o resíduo plástico que chega à Ilha do Fundão, seja por conta do uso das empresas, das instalações, dos departamentos, mas também por conta do lixo que chega na praia, soma cerca de 800 quilos por dia.

A ideia de ter uma unidade de uma tonelada por dia é que a gente tenha a capacidade de processar todo o lixo plástico que chega na Cidade Universitária do Fundão no futuro breve. No nosso plano, vamos começar a trabalhar nesse projeto a partir do segundo semestre de 2022, quando vamos ter um conjunto de dados já muito consistente na planta-piloto e também por conta das conversas com os parceiros que provavelmente, potencialmente, vão apoiar esse projeto, de maneira que gostaríamos de começar a construir essa unidade na Cidade Universitária, que já tem um local inclusive para ser instalado, que é onde vai ficar o projeto Orla Sem Lixo. Tem uma região que fica de frente ao canal do Cunha, e ali vai ficar como se fosse uma central de lidar com esse lixo.

O custo de uma solução de pirólise é um fator que dificulta a utilização? É uma técnica difícil de ser aplicada?

JP – Na verdade, não. É uma técnica relativamente barata, porque depende de poucos vasos, que não são muito complexos. Basicamente, é como se fosse, mal comparando, uma panela tapada, que tem uma linha de saída… você simplesmente esquenta e o material vai espontaneamente se degradando e fluindo e você coleta ele do outro lado. Além de tudo, pode ser mantida energeticamente pelas próprias correntes que produz. Por exemplo, metano eventualmente gerado ou gás pode ser usado para gerar a própria energia ou pode ser combinada, que é o que a gente quer fazer. Embora isso não esteja nesse plano nesse momento, o que queremos fazer é combinar com outras fontes energéticas sustentáveis, para que possamos reciclar 100% dos átomos de carbono que coletamos. Você pode coletar energia solar e essa energia necessária para promover o aumento de temperatura e desfazer as moléculas, por exemplo. Não precisa ser oriunda de queima de combustível, porque aí você ainda deixa de emitir esse carbono para a atmosfera. Mas ela é uma planta, um investimento relativamente barato.

Uma planta de uma tonelada por dia, estimamos um custo da ordem de R$ 500 mil, R$ 600 mil, o que para uma planta industrial é muito pouco. Em parte, é por causa dessa baixa complexidade dos equipamentos. Existe uma complexidade no conhecimento e na tecnologia que você aporta, mas não exatamente na complexidade na configuração do equipamento. O catalisador é importante, a maneira como opera, a maneira como trata o material é importante, mas os equipamentos são relativamente simples. Então, não é uma tecnologia muito cara, a não ser que você tenha que pagar royalties para alguém, mas aí vai pagar o conhecimento que aquele indivíduo ou aquela corporação está aportando naquele negócio. E aliás, ela nem pode ser cara, né? Se ela for cara, inviabiliza economicamente a operação, porque estamos lidando com o lixo e a gente vai usar essa corrente para produzir outros produtos químicos que tem no mercado. Por obviedade, essa corrente tem que ser mais barata do que os produtos que você vende, senão você não pode usar como matéria-prima. Ela também não pode ser cara mesmo, tem de ser uma tecnologia robusta. Em geral, não é muito cara. Nós já fizemos vários estudos de viabilidade econômica com esse material e os resultados são sempre muito positivos. Em parte, porque os custos operacionais e de desenvolvimento e de instalação são pequenos, mas o conhecimento aportado é grande.

De que modo o processo de pirólise confere valor comercial ao produto? Quais usos esse material pode ter?

JP – É uma pergunta muito interessante porque pode ter várias interpretações. A primeira coisa é pensar que é lixo que você está jogando fora, para o Estado, é um grande negócio. Os modelos de negócio não estão bem postos ainda, porque são atividades, empreendimentos relativamente novos. E por que que eu estou falando sobre esse tema? Porque o Estado, de repente, ele pode deixar de pagar pelo lixo e passar a vender o lixo. Veja que, neste modelo, para o Estado é um grande negócio. Ele hoje tem obrigação de catar o lixo e o custo do tratamento é o custo mais importante da maior parte das prefeituras do Brasil. E aí, de repente, o governo municipal se vê não mais como alguém que tem que pagar para alguém tratar o lixo dele, mas como alguém que vende o lixo. Só aí já é um ganho potencial grande. Poderia se perguntar se este modelo algum dia vai, de fato, ser estabelecido, porque, se você tem um lixo que o Estado carrega e paga para tratar, e agora o Estado vende, talvez você queira vender no lugar do Estado. Então, talvez o Estado tenha menos acesso a esse lixo? Porque talvez esse lixo fique mais raro, né? Porque o lixo passa a ser um insumo e passa a ter um valor de negócio. Passa a ser uma matéria-prima e não um fardo do qual você tem que se livrar.

O lixo, hoje, não tem valor nenhum. Então, qualquer coisa que você transforma, é ganho. Absolutamente qualquer. Hoje ele não tem valor, você pega e bota lá no aterro sanitário e cobre com terra. E se espera que daqui a 100 milhões de anos você volte para ver se virou petróleo. Só que a gente não tem 100 milhões de anos para ele ter virado petróleo e usar de novo. Sob esse aspecto, a valorização do produto é absurdamente total. Assim, se for em tempo percentual, infinito, porque você está dividindo alguma coisa por zero. Então, ele tem valor zero e agora vai ter um valor porque vamos transformar aquilo em um material ou em um produto que vai ter uso para alguém transformar e fazer um produto químico. Mas ainda vêm os custos, os valores que são abstratos, são conceituais. Por exemplo, quanto vale dizer que tem um produto 100% reciclado e que é 100% compatível com a modernidade da economia circular e com a prevenção, com a redução do dióxido da emissão de carbono na atmosfera? Isso tem um valor de marca, tem um valor intangível e as empresas têm disputado inclusive esse mercado. Muitas vezes ,quando a gente está vendo um filme, aparece uma propaganda do Kaiak, um perfume da Natura, e se você olhar a propaganda, a Natura vende a embalagem. Ela não fala que o perfume é cheiroso, é bom: fala que o Kaiak vem numa embalagem 100% reciclável, que retiram do resíduo marinho e que, portanto, está recuperando um material para fazer a embalagem. Se a Natura passa tanto tempo na propaganda dela falando sobre a embalagem e não sobre o perfume, é porque aquilo tem algum valor intangível e o valor intangível é associar a Natura com a preservação do ambiente, com as tecnologias mais modernas e não ser poluidora. Então, os ganhos potenciais são muitos e em muitas áreas.

Para se ter uma ideia, a Braskem vende o polietileno produzido a partir do petróleo e o polietileno produzido a partir do etanol. É o mesmo polietileno, porque o que importa em um produto químico não é de onde ele veio, é a molécula. Se a molécula é a mesma, o produto é o mesmo. Agora, se ele veio de A ou de B, tanto faz. Tanto faz entre aspas, como eu digo, não vai mudar a propriedade do produto. No entanto, o polietileno é produzido a partir do etanol. As empresas aceitam pagar um prêmio, elas pagam mais caro pelo polietileno do etanol que é rigorosamente igual ao polietileno do petróleo, mas que foi produzido a partir de uma fonte renovável.

Existe um valor intangível da empresa dizer “o meu produto é produzido integralmente a partir de material renovável e não a partir de petróleo”. Então, não se está pagando pelo desempenho, porque o desempenho é o mesmo, nem pela qualidade do material, que é a mesma. Ela está pagando pelo direito de ter um produto produzido a partir de fonte renovável. E isso se aplica também ao uso do lixo como insumo para produzir produtos químicos. Os ganhos são muitos e esse mercado ainda não está completamente consolidado, estabelecido, para que eu possa dizer “tenho ganho de 10%, 15%”, até porque as empresas podem topar pagar mais por uma matéria do lixo exatamente porque ela foi produzida a partir do lixo. Do mesmo jeito que quem compra o polietileno do etanol e aceita pagar mais porque é renovável. Então, esse é um mercado que está se estabelecendo ainda em muitos aspectos. Esses modelos de negócio não estão ainda 100%. É uma área para quem é engenheiro químico, como eu, maravilhosa para o sujeito trabalhar no século XXI. Eu tenho convicção absoluta que daqui a 10 anos, 15 anos, a Engenharia Química vai ser completamente diferente da Engenharia Química que eu aprendi, e que é fundamentalmente uma Engenharia do Petróleo.

Qual é o caminho do lixo? Onde fica a localização da pirólise nesse processo?

JP – Tem muita gente estudando este tema e eu poderia construir vários cenários. Se eu for construir um cenário de uma grande metrópole como o Rio de Janeiro, eu não tenho nenhuma dúvida de que, no futuro, teremos grandes espaços de coleta e triagem do lixo, que estão próximos das refinarias, como Duque de Caxias. E não é surpreendente que existam várias empresas hoje interessadas em fazer o que o pessoal está chamando de “mineração urbana”, uma mineração do lixo na região de Gramacho. Porque vocês sabem que o aterro de Gramacho está sendo fechado, em vários aspectos? Para que o lixo seja destinado a instalações melhores do que as que estavam disponíveis lá e tem ali uma quantidade de lixo absurdamente grande que podemos usar como se fosse petróleo, mas com uma diferença: não precisa ir 300 quilômetros da costa, seis quilômetros no fundo do mar. É um trabalho miserável para tirar o petróleo do pré-sal. Ele está ali na superfície para você, para ser usado.

Neste modelo integrado, em que os materiais vão ser usados para produzir outros produtos da indústria química, estar próximo da refinaria beneficia enormemente o projeto. Poderíamos imaginar que, neste caminho do lixo, haveria uma coleta que, ao invés de destinar o lixo para um aterro sanitário, destinaria para esses centros de triagem onde o material vai ser separado. Alguns serão encaminhados para reciclagem mecânica, outros para compostagem, se for material muito rico em matéria orgânica. E uma quantidade significativa vai ser encaminhada para essas unidades de pirólise, onde vão ser transformados em produtos químicos e encaminhados para refinaria que vai estar próxima. É um modelo que, provavelmente, vai ser comum no futuro, nas grandes metrópoles.

Mas agora eu vou construir um outro cenário. Imaginem uma comunidade ribeirinha no interior da região Norte do Brasil, no meio da Floresta Amazônica. Você não vai coletar materiais em todas essas comunidades ribeirinhas para encaminhar para uma grande refinaria na região de Manaus, porque o custo dessa operação provavelmente seria enorme. Seria como ter, mal comparando, embora provavelmente fossem barcos, caminhões andando por todo o Amazonas coletando lixo para levar pra Manaus. Provavelmente, não vai funcionar. Provavelmente, não vai ser sequer ambientalmente correto porque esses veículos vão queimar petróleo, queimar gasolina, vão emitir… Nesse cenário, é bastante provável que essas transformações sejam feitas localmente para gerar materiais úteis para aquelas comunidades, como o gás, como o óleo diesel para movimentar gerador de eletricidade. E coisas desse tipo.

Tudo indica que, no futuro próximo, teremos diferentes modelos de negócio operando em diferentes ambientes e, provavelmente, teremos desde os pequenos negócios operando em algumas pequenas comunidades mais isoladas ou que gerem lixo suficiente para que sejam auto-sustentáveis, até os grandes empreendimentos nas grandes metrópoles situados nas proximidades de grandes refinarias. No Brasil, isto é, na Bahia, em São Paulo, no Rio de Janeiro, enfim, em vários lugares. Esse cenário é perfeitamente factível e em tantos outros esse cenário teria que ser um pouco distinto desse. Nós vamos criar provavelmente esses diferentes modelos de negócio. Tem um monte de gente trabalhando neste tema hoje. Há, inclusive, empresas interessadas em desenvolver módulos que, idealmente, seriam como se fosse uma máquina, e a comunidade, eventualmente, carrega, leva o lixo, seu lixo plástico para aquela máquina que transforma localmente em óleo e em produtos químicos úteis para aquela própria comunidade, complementando o que já se faz com biodigestores para produzir metano, para iluminação, máquinas, nas fazendas, construindo uma rede integrada. Então, eu vejo soluções na pequena e na grande escala. E essa é uma área que está em desenvolvimento. É bastante grande nesse momento. Tem um monte de startups trabalhando neste tema.

*Entrevista concedida à equipe de Comunicação do projeto, coordenada pela professora Carine Prevedello (ECO/UFRJ), com a participação dos estudantes de Jornalismo Michelle Ribeiro, Lorenzo Mello e Rebecca Henze.

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